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Partida

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Morrer é o que os outros fazem Os que deixamos de ver, sentir, Os que deixamos de abraçar E de quem choramos a partida Morrer é aquela ‘coisa’ ridícula Que tentamos ignorar Porque acreditamos que o futuro Sempre vai acontecer Até descobrirmos por acaso Como frágil é a vida Que tomamos garantida E ficamos pasmos, indecisos Sem saber que fazer, que pensar Gritamos, choramos, oramos Levantamos ou baixamos Os ombros, a cabeça E esquecemos que a morte é Da vida, outra face a ser vivida

Não há tempo

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Não há tempo certo Para as palavras surgirem abraçadas À procura de sentido, de poetas Não há tempo para o silêncio vestir Aquelas que atordoam, confundem E magoam Ou as que dizem medo, morte e solidão E todas as demais que importam, Ditas, escritas, relembradas Que usamos para amar, imaginar, Para nos ligar, aquecer, amordaçar E até aquelas que não nos dizem nada

Momentos

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Só quero sentir o teu corpo a mergulhar no meu Num amplexo frágil e volátil Em que um segundo é uma hora E uma hora um segundo Depois o vórtice , o abismo O odor incomparável do outro Estranho e exaltante A pele, a agarrar-se ao lençol Para não se perder no êxtase E tu feito menino, doce e vulnerável Após a volúpia dos sentidos A deitar a cabeça no meu peito À procura do consolo, do ninho

Fragilidades

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De repente o chão de pedra Fez-se vidro, gelo, escuridão E eu caí, enrolada, Bicho exangue a sugar o ar, De olhos incrédulos a fugirem À face cinza, irreal Que me habitara o ventre E fugira sem piedade, à procura Da vertigem … E o mundo, imaculado de orvalho, Espanto, Sol e Lua Igual sempre, como a morte , Igual sempre, a celebrar a vida

Mundo

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Queria sentir a tua pele, Como se fosse a minha pele A tua boca, como se fosse a minha E a nudez crua e sublime Dos olhos que se esgotam à espera Da magia das manhãs Quando os corações acordam E as mãos esquecem o calor do leito Queria sentir a tua pele, Quando a alma dói E o abraço vale qualquer palavra, Quando a consciência foge E o mundo se resume a um novelo, Que se enrola e desenrola no vazio Enquanto a vida se despede devagar À espera do amanhã e outro dia

Shhhhh

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Há um silêncio essencial A viver no branco dos lençóis, No vazio dos jardins Ao fim da tarde, Nas noites de tédio e álcool É um silêncio companheiro Feito de cansaço e fuga Que sempre se esconde Nas igrejas solitárias Das ruas perdidas da cidade, Nas praças desertas , Na vertigem das arribas Um silêncio imaculado e livre Que acalma e desperta E faz acreditar Que a vida somos nós e mais

Dia

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O Dia… será um dia diferente Inconcebível, apocalíptico, De luz pintada a negro e frio, Com ósculos acanhados E abraços inconsequentes Embalados pelo cantar dos ventos Dia de risos nervosos, assustados, Enquanto os olhares se escondem Compassivos, acobardados E o coração exangue vagueia tonto À procura do túnel prometido No meio das sombras enlutadas Momento de luz? De escuridão? De voltar à matriz , à matrix ? Átomos apenas, vazios, Pó de estrelas , sem paixão

A dúvida

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Sei da dúvida constante, Da fome de beleza, Da ânsia voraz pelo poema E do canto das baleias , Das açucenas , Sei das madrugadas desenhadas, Pela chuva branda ou açoitada, Dos ventos que gritam, gemem E sussurram nas noites afogadas Pelo silêncio e o mar Sei da luz molhada pela lua, Com pressa de regressar ao Sol E da certeza inexorável Que os anos fogem aos dias, Como pássaros sem norte E como valeu a pena a vida Se o olhar ainda for sorriso No último dia da viagem.

Diário ll

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Amo o teu sorriso enigmático Que salta lesto da moldura Quando a manhã acorda Ave solta sobre as vagas Dos mares que navegámos À procura de todos os mistérios E depois repiso os dias Em que não amanheces Em que não sinto o teu abraço, As dúvidas, a revolta magoada E o mundo igual a sempre, A desaguar no espaço Enquanto olho, desarmada Para esta saudade que arrasa Para esta dor que mata ...

Companheira

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O que mais me dói não é a dor que sinto a toda a hora Aquela que habita e magoa, intrusiva e áspera, sem pejo , capaz de fingir ser amiga e me abraçar quase com desejo Pior dor é a que se disfarça e persiste como companheira sem se dar valor da dor que é Amante antiga, habituada a ser ignorada, mas mantida por hábito, por inércia, por fé, E fica amor para a vida inteira

Corpos

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Há uma voz perdida nas ruas, Fugida ao vozear das praças Que se esconde no silêncio das paredes, E acorda livre e pura entre lençóis Voz sem palavras , suspensa Em corpos pintados pelo tempo E construída passo a passo Como um pássaro a tentar voar Voz sem idade , permanente e viva Oculta na urgência da cidade Na esperança que o amor se espalhe Como sorriso a quebrar o aço

Dia das Bruxas

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Hoje é dia de cinza , de murmúrios , De vultos cabisbaixos , enegrecidos, Que se escondem nas sombras , atrás das pedras à procura da dor Dia das almas, dos espíritos , De esquecer o esquecimento E olhar de frente a morte , sem pudor Saber dizer depois, adeus, se ela surgir E nos abraçar como amiga derradeira Anjo negro, sombrio, enganador De mil promessas, para nos levar De volta à luz , às trevas , onde for... ………………………………………… Dia do criador exigir a criatura …

Dúvidas

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Não sei porque dói aquilo que sinto E porque me pergunto sobre tudo Vejo o sol que incendeia a planície Onde o vento ajoelha e reza, A bendizer a terra que o acolhe, As asas brancas das montanhas em preces indizíveis, O belo que arrebata e espanta, Trazendo orvalho e luz aos olhos, Na mais pequena obra do criador E agradeço o milagre de estar vivo Que tanto me inquieta a alma, Amansa a dor e afasta o pranto

A colina

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Hoje faço luto por mim, Porque esqueci as tuas mãos A voar como aves novas Sobre as minhas ancas E o meu corpo não é mais a colina Que subias ansioso Quando madrugavas Hoje faço luto por ti, Porque o riso não acorda mais A tua boca O sol esqueceu o teu olhar E o teu cheiro a árvore verde Já não traz memórias Nem desejos de passado Hoje o dia é de sepultar vozes, Gestos e sentidos, De fingir que a dor não dói, Enquanto a alma implode E os lírios beijam as rosas

Ninguém sabe

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Ninguém sabe da dor, Ninguém sabe das lágrimas Porque o sorriso voa feito pássaro, A boca esconde a mágoa E os dias entardecem iguais Até que o espanto irrompe em caos O ar recua amedrontado A pele seca arrepiada e o momento De soltar o grito se faz espada E o que já foi tudo agora é nada

Amanhece

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Quando amanhece As silhuetas tornam-se visíveis E os sons acordam o silêncio É a hora certa para definir o tempo E abrir os olhos Hora do espelho mostrar quem somos Sem disfarces, Dos segredos serem desvendados E a verdade revelada Enquanto o mundo, sem pudor, Resignado à mordaça, À mascara que o cega, Absorto em vez de vigilante, Fica à espera de rios sem margens, De mares sem vagas, De milagrosas varas de condão, Até que o virar do espelho Mostre a sua verdadeira face

Acordo a escuridão

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Acordo a escuridão Abafo os gritos, o silêncio, Quando displicente Calas o murmúrio das paredes E me largas amarrotada, Esquecida na dobra do lençol Esquecida na cama, onde o amor Perdeu sentido e voz Até a fuga se tornar obvia Para escapar à ausência Do corpo, do arrepio, de ti, E ainda me lembrar de mim

Lilases

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Já não há dedos ansiosos, Olhares atentos, cúmplices, Abraço, cheiro da pele, Urgência faminta do corpo, Gritos abafados, murmúrios, Risos, lágrimas E conversas descuidadas Já não vejo o jarro azul, Meio de água A escorrer no tapete desmaiado E a tal canção francesa A insinuar-se entre os lençóis, Adereço essencial de cena De amores (des)encontrados …E os lilases continuam mortos

Meu filho

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Muitas vezes te olhei nos olhos Onde escondias o riso, as mágoas E deixei as palavras secarem À espera do acordar da cidade, Onde caminhávamos sem sentido, Em fuga ao confronto, ao conforto, Meu filho, de alma atribulada, Fugido dos outros, de si próprio, Em desespero Filho protegido, protector, Capaz de enganos e abraços Amor de colo e sangue, Sempre em busca da alma Entre delírios de veludo e aço

Dor inesperada

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E a dor surge inesperada, Provocadora, insolente, Mar sem fim, nem fundo, Onda a crescer sem barragem que a contenha … E se perde todos os dias na corrente, Inunda, devassa e controla a mente Depois, é fogo num cristal de mágoa, A arrancar o sonho, a ignorar o desejo Esquecida, nunca morta, nas asas do silêncio Porque cheirava então a cidade a rosas ? Porque cheira agora a rua a medo ?