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Nunca quis

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Nunca quis o sabor da tua boca, O toque do teu corpo, O odor acre do sexo Apenas o calor das mãos, O ombro firme, O silêncio difícil, cúmplice Na hora do cortar das asas E do abismo me chamar perto, Quando o medo assombrava, E o sono era impossível, A ternura insistente, constante, Abraços que pareciam eternos E depois a fuga, sem mais … Ficaram os porquês, mais os lírios

Tempo

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Queria sentir o meu corpo a enrolar-se no teu E a minha pele a respirar a tua Depois perder-me, Encontrar-me… Esperar o momento do tempo cessar, Da terra deixar de girar E do universo se esquecer de expandir Queria sentir o meu corpo Como se fosse uma ave a abrir as asas No primeiro voo, Como se a terra acabasse de nascer E o sol descobrisse o fogo Depois deixar a noite amanhecer, O orvalho acetinar o verde das folhas E agradecer a vida a ser vivida

Lobisomem

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Há um lobisomem  Escondido nas trevas, Atrás das portas, Agora que a centelha se foi E as nuvens se concentram, Irremediáveis Há um lobisomem escondido Nos abismos da terra, do mar Boca sedenta, à espera De carne fresca, distraída, De cérebros inocentes Mentes frágeis, vulneráveis Um lobisomem, Que surge inesperado De dentro das memórias, Dos medos, das histórias Monstro que transforma a razão A suga e passa ao lado, Omnipresente A tentar sempre seduzir e enganar, Para se sumir satisfeito no vazio, Quando o medo se espalha Porque a batalha foi ganha

Partida

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Morrer é o que os outros fazem Os que deixamos de ver, sentir, Os que deixamos de abraçar E de quem choramos a partida Morrer é aquela ‘coisa’ ridícula Que tentamos ignorar Porque acreditamos que o futuro Sempre vai acontecer Até descobrirmos por acaso Como frágil é a vida Que tomamos garantida E ficamos pasmos, indecisos Sem saber que fazer, que pensar Gritamos, choramos, oramos Levantamos ou baixamos Os ombros, a cabeça E esquecemos que a morte é Da vida, outra face a ser vivida

Não há tempo

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Não há tempo certo Para as palavras surgirem abraçadas À procura de sentido, de poetas Não há tempo para o silêncio vestir Aquelas que atordoam, confundem E magoam Ou as que dizem medo, morte e solidão E todas as demais que importam, Ditas, escritas, relembradas Que usamos para amar, imaginar, Para nos ligar, aquecer, amordaçar E até aquelas que não nos dizem nada

Momentos

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Só quero sentir o teu corpo a mergulhar no meu Num amplexo frágil e volátil Em que um segundo é uma hora E uma hora um segundo Depois o vórtice , o abismo O odor incomparável do outro Estranho e exaltante A pele, a agarrar-se ao lençol Para não se perder no êxtase E tu feito menino, doce e vulnerável Após a volúpia dos sentidos A deitar a cabeça no meu peito À procura do consolo, do ninho

Fragilidades

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De repente o chão de pedra Fez-se vidro, gelo, escuridão E eu caí, enrolada, Bicho exangue a sugar o ar, De olhos incrédulos a fugirem À face cinza, irreal Que me habitara o ventre E fugira sem piedade, à procura Da vertigem … E o mundo, imaculado de orvalho, Espanto, Sol e Lua Igual sempre, como a morte , Igual sempre, a celebrar a vida

Mundo

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Queria sentir a tua pele, Como se fosse a minha pele A tua boca, como se fosse a minha E a nudez crua e sublime Dos olhos que se esgotam à espera Da magia das manhãs Quando os corações acordam E as mãos esquecem o calor do leito Queria sentir a tua pele, Quando a alma dói E o abraço vale qualquer palavra, Quando a consciência foge E o mundo se resume a um novelo, Que se enrola e desenrola no vazio Enquanto a vida se despede devagar À espera do amanhã e outro dia

Shhhhh

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Há um silêncio essencial A viver no branco dos lençóis, No vazio dos jardins Ao fim da tarde, Nas noites de tédio e álcool É um silêncio companheiro Feito de cansaço e fuga Que sempre se esconde Nas igrejas solitárias Das ruas perdidas da cidade, Nas praças desertas , Na vertigem das arribas Um silêncio imaculado e livre Que acalma e desperta E faz acreditar Que a vida somos nós e mais

Dia

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O Dia… será um dia diferente Inconcebível, apocalíptico, De luz pintada a negro e frio, Com ósculos acanhados E abraços inconsequentes Embalados pelo cantar dos ventos Dia de risos nervosos, assustados, Enquanto os olhares se escondem Compassivos, acobardados E o coração exangue vagueia tonto À procura do túnel prometido No meio das sombras enlutadas Momento de luz? De escuridão? De voltar à matriz , à matrix ? Átomos apenas, vazios, Pó de estrelas , sem paixão