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Turbilhão

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O tempo parado, A tua boca Ávida da minha, Viagem tonta, entontecida, Mente enublada e os sentidos O gozo do toque, O odor diferente E o turbilhão a sufocar a alma Inclemente, Amor único a nascer Flor, límpida de cor, água, Como outra mente A saber o que sinto, A saber o que sentes

Recomeços

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Palavras e palavras, Ininterruptas, A cortarem a pele, a cavarem a carne Palavras como facas afiadas Que interrompem o sono, os sonhos Provocam a náusea e o vómito E esmagam o estômago Enquanto a razão foge E a mágoa acontece À espera que o tempo nasça novo Os sons se esgotem, E o espírito serene o corpo Para recomeçar sem medo

Quebrar

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Não, não quebres o silêncio, meu amor Deixa os olhos se abraçarem, Os dedos ansiosos desfrutarem a pele, Esquece o mundo, o tempo, Descansa a ternura nos meus braços E espera a manhã acontecer Depois, quando for hora de palavras Dá-me a tua mão e diz apenas - estou aqui

Nunca quis

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Nunca quis o sabor da tua boca, O toque do teu corpo, O odor acre do sexo Apenas o calor das mãos, O ombro firme, O silêncio difícil, cúmplice Na hora do cortar das asas E do abismo me chamar perto, Quando o medo assombrava, E o sono era impossível, A ternura insistente, constante, Abraços que pareciam eternos E depois a fuga, sem mais … Ficaram os porquês, mais os lírios

Tempo

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Queria sentir o meu corpo a enrolar-se no teu E a minha pele a respirar a tua Depois perder-me, Encontrar-me… Esperar o momento do tempo cessar, Da terra deixar de girar E do universo se esquecer de expandir Queria sentir o meu corpo Como se fosse uma ave a abrir as asas No primeiro voo, Como se a terra acabasse de nascer E o sol descobrisse o fogo Depois deixar a noite amanhecer, O orvalho acetinar o verde das folhas E agradecer a vida a ser vivida

Lobisomem

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Há um lobisomem  Escondido nas trevas, Atrás das portas, Agora que a centelha se foi E as nuvens se concentram, Irremediáveis Há um lobisomem escondido Nos abismos da terra, do mar Boca sedenta, à espera De carne fresca, distraída, De cérebros inocentes Mentes frágeis, vulneráveis Um lobisomem, Que surge inesperado De dentro das memórias, Dos medos, das histórias Monstro que transforma a razão A suga e passa ao lado, Omnipresente A tentar sempre seduzir e enganar, Para se sumir satisfeito no vazio, Quando o medo se espalha Porque a batalha foi ganha

Partida

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Morrer é o que os outros fazem Os que deixamos de ver, sentir, Os que deixamos de abraçar E de quem choramos a partida Morrer é aquela ‘coisa’ ridícula Que tentamos ignorar Porque acreditamos que o futuro Sempre vai acontecer Até descobrirmos por acaso Como frágil é a vida Que tomamos garantida E ficamos pasmos, indecisos Sem saber que fazer, que pensar Gritamos, choramos, oramos Levantamos ou baixamos Os ombros, a cabeça E esquecemos que a morte é Da vida, outra face a ser vivida

Não há tempo

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Não há tempo certo Para as palavras surgirem abraçadas À procura de sentido, de poetas Não há tempo para o silêncio vestir Aquelas que atordoam, confundem E magoam Ou as que dizem medo, morte e solidão E todas as demais que importam, Ditas, escritas, relembradas Que usamos para amar, imaginar, Para nos ligar, aquecer, amordaçar E até aquelas que não nos dizem nada

Momentos

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Só quero sentir o teu corpo a mergulhar no meu Num amplexo frágil e volátil Em que um segundo é uma hora E uma hora um segundo Depois o vórtice , o abismo O odor incomparável do outro Estranho e exaltante A pele, a agarrar-se ao lençol Para não se perder no êxtase E tu feito menino, doce e vulnerável Após a volúpia dos sentidos A deitar a cabeça no meu peito À procura do consolo, do ninho

Fragilidades

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De repente o chão de pedra Fez-se vidro, gelo, escuridão E eu caí, enrolada, Bicho exangue a sugar o ar, De olhos incrédulos a fugirem À face cinza, irreal Que me habitara o ventre E fugira sem piedade, à procura Da vertigem … E o mundo, imaculado de orvalho, Espanto, Sol e Lua Igual sempre, como a morte , Igual sempre, a celebrar a vida