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Corpos

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Há uma voz perdida nas ruas, Fugida ao vozear das praças Que se esconde no silêncio das paredes, E acorda livre e pura entre lençóis Voz sem palavras , suspensa Em corpos pintados pelo tempo E construída passo a passo Como um pássaro a tentar voar Voz sem idade , permanente e viva Oculta na urgência da cidade Na esperança que o amor se espalhe Como sorriso a quebrar o aço

Dia das Bruxas

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Hoje é dia de cinza , de murmúrios , De vultos cabisbaixos , enegrecidos, Que se escondem nas sombras , atrás das pedras à procura da dor Dia das almas, dos espíritos , De esquecer o esquecimento E olhar de frente a morte , sem pudor Saber dizer depois, adeus, se ela surgir E nos abraçar como amiga derradeira Anjo negro, sombrio, enganador De mil promessas, para nos levar De volta à luz , às trevas , onde for... ………………………………………… Dia do criador exigir a criatura …

Dúvidas

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Não sei porque dói aquilo que sinto E porque me pergunto sobre tudo Vejo o sol que incendeia a planície Onde o vento ajoelha e reza, A bendizer a terra que o acolhe, As asas brancas das montanhas em preces indizíveis, O belo que arrebata e espanta, Trazendo orvalho e luz aos olhos, Na mais pequena obra do criador E agradeço o milagre de estar vivo Que tanto me inquieta a alma, Amansa a dor e afasta o pranto

A colina

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Hoje faço luto por mim, Porque esqueci as tuas mãos A voar como aves novas Sobre as minhas ancas E o meu corpo não é mais a colina Que subias ansioso Quando madrugavas Hoje faço luto por ti, Porque o riso não acorda mais A tua boca O sol esqueceu o teu olhar E o teu cheiro a árvore verde Já não traz memórias Nem desejos de passado Hoje o dia é de sepultar vozes, Gestos e sentidos, De fingir que a dor não dói, Enquanto a alma implode E os lírios beijam as rosas

Ninguém sabe

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Ninguém sabe da dor, Ninguém sabe das lágrimas Porque o sorriso voa feito pássaro, A boca esconde a mágoa E os dias entardecem iguais Até que o espanto irrompe em caos O ar recua amedrontado A pele seca arrepiada e o momento De soltar o grito se faz espada E o que já foi tudo agora é nada

Amanhece

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Quando amanhece As silhuetas tornam-se visíveis E os sons acordam o silêncio É a hora certa para definir o tempo E abrir os olhos Hora do espelho mostrar quem somos Sem disfarces, Dos segredos serem desvendados E a verdade revelada Enquanto o mundo, sem pudor, Resignado à mordaça, À mascara que o cega, Absorto em vez de vigilante, Fica à espera de rios sem margens, De mares sem vagas, De milagrosas varas de condão, Até que o virar do espelho Mostre a sua verdadeira face

Acordo a escuridão

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Acordo a escuridão Abafo os gritos, o silêncio, Quando displicente Calas o murmúrio das paredes E me largas amarrotada, Esquecida na dobra do lençol Esquecida na cama, onde o amor Perdeu sentido e voz Até a fuga se tornar obvia Para escapar à ausência Do corpo, do arrepio, de ti, E ainda me lembrar de mim

Lilases

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Já não há dedos ansiosos, Olhares atentos, cúmplices, Abraço, cheiro da pele, Urgência faminta do corpo, Gritos abafados, murmúrios, Risos, lágrimas E conversas descuidadas Já não vejo o jarro azul, Meio de água A escorrer no tapete desmaiado E a tal canção francesa A insinuar-se entre os lençóis, Adereço essencial de cena De amores (des)encontrados …E os lilases continuam mortos

Meu filho

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Muitas vezes te olhei nos olhos Onde escondias o riso, as mágoas E deixei as palavras secarem À espera do acordar da cidade, Onde caminhávamos sem sentido, Em fuga ao confronto, ao conforto, Meu filho, de alma atribulada, Fugido dos outros, de si próprio, Em desespero Filho protegido, protector, Capaz de enganos e abraços Amor de colo e sangue, Sempre em busca da alma Entre delírios de veludo e aço

Dor inesperada

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E a dor surge inesperada, Provocadora, insolente, Mar sem fim, nem fundo, Onda a crescer sem barragem que a contenha … E se perde todos os dias na corrente, Inunda, devassa e controla a mente Depois, é fogo num cristal de mágoa, A arrancar o sonho, a ignorar o desejo Esquecida, nunca morta, nas asas do silêncio Porque cheirava então a cidade a rosas ? Porque cheira agora a rua a medo ?