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Mundo

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Queria sentir a tua pele, Como se fosse a minha pele A tua boca, como se fosse a minha E a nudez crua e sublime Dos olhos que se esgotam à espera Da magia das manhãs Quando os corações acordam E as mãos esquecem o calor do leito Queria sentir a tua pele, Quando a alma dói E o abraço vale qualquer palavra, Quando a consciência foge E o mundo se resume a um novelo, Que se enrola e desenrola no vazio Enquanto a vida se despede devagar À espera do amanhã e outro dia

Shhhhh

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Há um silêncio essencial A viver no branco dos lençóis, No vazio dos jardins Ao fim da tarde, Nas noites de tédio e álcool É um silêncio companheiro Feito de cansaço e fuga Que sempre se esconde Nas igrejas solitárias Das ruas perdidas da cidade, Nas praças desertas , Na vertigem das arribas Um silêncio imaculado e livre Que acalma e desperta E faz acreditar Que a vida somos nós e mais

Dia

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O Dia… será um dia diferente Inconcebível, apocalíptico, De luz pintada a negro e frio, Com ósculos acanhados E abraços inconsequentes Embalados pelo cantar dos ventos Dia de risos nervosos, assustados, Enquanto os olhares se escondem Compassivos, acobardados E o coração exangue vagueia tonto À procura do túnel prometido No meio das sombras enlutadas Momento de luz? De escuridão? De voltar à matriz , à matrix ? Átomos apenas, vazios, Pó de estrelas , sem paixão

A dúvida

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Sei da dúvida constante, Da fome de beleza, Da ânsia voraz pelo poema E do canto das baleias , Das açucenas , Sei das madrugadas desenhadas, Pela chuva branda ou açoitada, Dos ventos que gritam, gemem E sussurram nas noites afogadas Pelo silêncio e o mar Sei da luz molhada pela lua, Com pressa de regressar ao Sol E da certeza inexorável Que os anos fogem aos dias, Como pássaros sem norte E como valeu a pena a vida Se o olhar ainda for sorriso No último dia da viagem.

Diário ll

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Amo o teu sorriso enigmático Que salta lesto da moldura Quando a manhã acorda Ave solta sobre as vagas Dos mares que navegámos À procura de todos os mistérios E depois repiso os dias Em que não amanheces Em que não sinto o teu abraço, As dúvidas, a revolta magoada E o mundo igual a sempre, A desaguar no espaço Enquanto olho, desarmada Para esta saudade que arrasa Para esta dor que mata ...

Companheira

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O que mais me dói não é a dor que sinto a toda a hora Aquela que habita e magoa, intrusiva e áspera, sem pejo , capaz de fingir ser amiga e me abraçar quase com desejo Pior dor é a que se disfarça e persiste como companheira sem se dar valor da dor que é Amante antiga, habituada a ser ignorada, mas mantida por hábito, por inércia, por fé, E fica amor para a vida inteira

Corpos

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Há uma voz perdida nas ruas, Fugida ao vozear das praças Que se esconde no silêncio das paredes, E acorda livre e pura entre lençóis Voz sem palavras , suspensa Em corpos pintados pelo tempo E construída passo a passo Como um pássaro a tentar voar Voz sem idade , permanente e viva Oculta na urgência da cidade Na esperança que o amor se espalhe Como sorriso a quebrar o aço

Dia das Bruxas

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Hoje é dia de cinza , de murmúrios , De vultos cabisbaixos , enegrecidos, Que se escondem nas sombras , atrás das pedras à procura da dor Dia das almas, dos espíritos , De esquecer o esquecimento E olhar de frente a morte , sem pudor Saber dizer depois, adeus, se ela surgir E nos abraçar como amiga derradeira Anjo negro, sombrio, enganador De mil promessas, para nos levar De volta à luz , às trevas , onde for... ………………………………………… Dia do criador exigir a criatura …

Dúvidas

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Não sei porque dói aquilo que sinto E porque me pergunto sobre tudo Vejo o sol que incendeia a planície Onde o vento ajoelha e reza, A bendizer a terra que o acolhe, As asas brancas das montanhas em preces indizíveis, O belo que arrebata e espanta, Trazendo orvalho e luz aos olhos, Na mais pequena obra do criador E agradeço o milagre de estar vivo Que tanto me inquieta a alma, Amansa a dor e afasta o pranto

A colina

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Hoje faço luto por mim, Porque esqueci as tuas mãos A voar como aves novas Sobre as minhas ancas E o meu corpo não é mais a colina Que subias ansioso Quando madrugavas Hoje faço luto por ti, Porque o riso não acorda mais A tua boca O sol esqueceu o teu olhar E o teu cheiro a árvore verde Já não traz memórias Nem desejos de passado Hoje o dia é de sepultar vozes, Gestos e sentidos, De fingir que a dor não dói, Enquanto a alma implode E os lírios beijam as rosas