Absurdo
Vi hoje um pavão exibir a cauda, pintada de estrelas únicas e abissais como buracos negros, a dançar, sinuoso, enquanto encantava a fêmea baça e discreta que lhe dará a prole.
E só me vinha à ideia as fadas do lar, do hoje e do antigamente, à espera que o dono da casa e delas, lhes passasse a mão na cabeça e perguntasse se o jantar estava na mesa …
E elas, também baças e discretas diziam sim, que o jantar estava pronto. E sentavam-se então, de boca fechada e olhar resignado, a servir o bife de 300g., sempre mal passado, porque ele era um "mouro de trabalho" e precisava comer bem, mais as batatas cortadas finas, para ficarem estaladiças, enquanto debicavam um pouco disto ou daquilo e iam e vinham à cozinha, pressurosas, a buscar o vinho esquecido, o pão, ou a manteiga, desejando que o tempo da refeição acabasse rápido e ele saísse para ir ter com os amigos ao café, ou adormecesse sentado à frente da televisão, para evitarem as mãos pesadas e o cheiro do corpo suado, mais a obrigação de lhe sentir o resfolegar, sem delicadeza nem desejo, durante o sexo por obrigação, porque sempre tinha sido assim… era o seu dever.
Estranho o que a dança elegante do pavão a cortejar a fêmea fez surgir na minha mente ...... e no entanto, nunca vi nenhuma mulher pressurosa, a servir um bife de 300g. ao homem com quem divide a cama ...... Deve ter sido um filme, que me veio à memória ...... ou talvez um pesadelo ...

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